MEMÓRIA DA MIGRAÇÃO
Daniela Beccaccia Versiani - PUC/Rio
A memória da migração, a memória de outras pertenças que não aquela do grupo que acolhe o imigrante, tem tido, ao longo da história da humanidade, que se confrontar com a xenofobia, com os nacionalismos, com ideologias essencialistas, tudo somado formando um tipo de mentalidade profundamente arraigada nas sociedades ocidentais, e que muitas vezes não dá ao imigrante outra alternativa, para não ser excluído, senão aquela de assimilar-se totalmente, esquecendo-se de seu passado e de suas outras pertenças. A aceitação desta condição reforça o essencialismo e mascara a pluralidade, complexidade e diversidade das sociedades e das identidades culturais.
No ensaio “Ruth, the model émigré: mourning and the symbolic politics of immigration”, a cientista política Bonnie Honig, tentando dar conta principalmente do contexto americano da discussão sobre imigrantes e políticas de imigração (p. 192), mostra como estas questões não se relacionam apenas com “tensões de ordem econômica e política”, mas também com os “sintomas de uma perpétua ansiedade pública sobre identidade e unidade nacional” (p. 192).
Neste artigo, Bonnie Honig enfatiza a predominância de duas reações aos imigrantes e aos estrangeiros: ou são vistos como os “responsáveis pela fragmentação” da sociedade, ou são celebrados pela sua “ “hibridação”, e pela sua “identidade não-assimilada, hifenizada, bilíngüe e bicultural” (p. 193). Para a autora, estas reações ambivalentes “provêm de uma determinação do regime em recuperar estrangeiros para um projeto nacional, e não apenas da natureza dos imigrantes ou grupo étnico em questão” (p. 193).
O principal argumento de Bonnie Honig gira em torno da afirmação de que os princípios da democracia dependem hoje daquilo que ela denomina um “cosmopolitismo democrático”, comprometido com uma política onde o anseio por uma identidade ou unidade nacional está atenuado, e na qual os atores buscam outras formas de atuação política e de identificação “que não apenas aquelas baseadas em uma afiliação com os registros subnacional, nacional e internacional”.Isto porque hoje, nas palavras de Honig, verifica-se que, “cada vez mais, a prática democrática ultrapassa os Estados que parece pressupor; o demos da democracia está disperso”(p. 193).
As reflexões de Bonnie Honig partem da sua releitura do Livro de Rute, na qual o texto do Antigo Testamento é entendido como a representação de uma “política simbólica da imigração” (p. 193). Para Bonnie Honig, existem duas reações dominantes no que diz respeito à imigração, a primeira na qual os imigrantes são avaliados pelas contribuições que “trazem para nós – diversidade, energia, talentos, indústria, cozinhas inovadoras”, a outra em que são temidos pela ameaça do que podem “vir a fazer conosco – consumir nossos bens, diluir nossa herança comum, fragmentar nossa política, minar nossa cultura democrática ou cosmopolita”. Como ressalta a autora, as duas reações são balizadas pelo pressuposto da Nação: “ambas as reações julgam o imigrante em termos do que ele fará por nós – ou fará a nós – como nação” (p. 196). Para a autora, nas tradicionais leituras do Livro de Rute, Rute e Orfa “personificam o par admiração e medo, oportunidade e ameaça, senso de suplementação e fragmentação com o qual imigrantes com freqüência afetam as ordens que os absorvem ou excluem”. Em outras palavras, “o bom e o mau imigrante (p. 197)”.
A proposta de Bonnie Honig em seu ensaio é ir além destas leituras e tentar perceber o contexto no qual Rute, a moabita que acompanha a sogra Noemi em seu retorno a Belém, foi recebida, de modo a explicitar que a ela não foram dadas as condições de lamentar suas perdas, manter-se moabita em Belém, nem tampouco de interagir como uma igual na ordem social que a recebeu, de modo que, para ali permanecer, precisou esquecer seu passado, ao preço de sua mudez, da impossibilidade de exercer sua maternidade (seu filho é entregue à sogra Noemi) e da sua exclusão na linhagem de Davi. Daí a importância, na argumentação de Bonnie Honig, da figura de Orfa, a outra nora de Noemi que decide não acompanhá-la a Belém, e que personificaria as perdas que Rute não pôde lamentar:
Mas e se lêssemos Orfa como parte de Rute, como a personificação da parte de Rute que não se impede de continuar moabita mesmo estando em Belém? Essa história poderia então ilustrar a profunda e permanente ambivalência que regimes (mesmo democráticos) tendem a ter sobre os estrangeiros que vivem em seu seio” ( p. 197 ).
Os principais conceitos com que Bonnie Honig trabalha em seu texto são a importância da elaboração do luto (mourning)[1] – como momento para a lamentação da perda (loss) –, a noção de pertença (membership), e a capacitação para o agenciamento (agency) decorrente do aprendizado que advém da experiência da perda. É preciso ainda destacar que, em sua argumentação, o papel do contexto em que este imigrante é recebido é um dado fundamental para a vivência saudável da experiência do luto.
A leitura de Honig ao Livro de Rute parte do argumento psicanalítico sobre os objetos transacionais como instrumentos que permitem “explorar a experiência de perda e luto nos projetos de transição e deslocamento”. A justificativa que Honig dá para o fato de trabalhar com este conceito emprestado da psicanálise é que, assim como o objeto transacional possibilita a transição para um futuro em que o sujeito precisará viver sem a presença do que perdeu, a questão que se discute aqui“é a transição para um futuro cosmopolitismo democrático” (p. 206).
Honig procura deixar claro que utiliza a psicanálise não como método universal, mas como um “paradigma cultural particular que explora experiências de compensação e perda de um modo que ressoa em certas comunidades e culturas, e não apenas em indivíduos” (p. 206). A psicanálise enfatiza o papel dos objetos transacionais nos processos de individuação, nos quais a separação e a autonomia são experiências importantes no desenvolvimento e independência da criança. Honig amplia estas colocações para a sua dimensão social, afirmando que separação e transição não dizem respeito apenas às crianças ou imigrantes,mas são questões permanentes, que nos acompanham a todos ao longo da vida (p. 206). Por outro lado, Honig também se recusa a pensar nessas questões como uma trajetória de desenvolvimento, porque isto infantilizaria os imigrantes e reforçaria a percepção que em geral têm os regimes ocidentais que recebem imigrantes de regimes onde há emigração: ou seja, como um passado que o Ocidente já superou e que portanto pode ser deixado para trás sem que isto signifique uma perda. (p. 206-7).
Assim, a questão que Honig quer discutir em seu ensaio é justamente o modo pelo qual sociedades lidam com as perdas sofridas pelos seus integrantes (imigrantes ou não).
Baseando-se em teorias advindas da psicanálise (Winnicott e Eric Santer), Honig recorda que o papel que o objeto transacional desempenha é aquele de possibilitar uma separação saudável, sempre que estejam presentes as condições que a favorecem. Estas condições são, em primeiro lugar, que a separação não seja traumática, em segundo, que exista um ambiente saudável para o jogo com o objeto transacional, e, por fim, que exista uma “dimensão inter-subjetiva”, ou seja, que a perda e o luto sejam testemunhados e partilhados com outras pessoas. Nas palavras de Bonnie Honig, “se estas condições forem encontradas, o espaço para o jogo com o objeto pode servir como um lugar de saudável luto/lamento (mourning) da perda acarretada pela transição” (p. 207). O jogo com o objeto transacional é desta forma a oportunidade que o sujeito tem para dramatizar sua perda e com isto tornar-se capaz de enfrentar a separação e a individuação(p. 207).
É importante notar que, como explica a autora, caso o processo ocorra sem estas condições, não há nem lamento/luto (mourning), nem capacitação (empowerment). Nesse caso, o sujeito passa a tratar o objeto como um fetiche, em um jogo que “sinaliza a negação da perda”. Desta forma, o objeto deixa de ter sentido para o sujeito, que o abandona totalmente. Este processo recebe o nome de “trauma da significação”, no qual o próprio sujeito fica “abandonado, silencioso e sem discurso, fora do mundo da linguagem, do jogo e do lamento/luto (mourning). Este estado é prenúncio para a total falta de interação:
Enfatizando as três dimensões do jogo com o objeto transacional – lamento/luto (mourning), capacitação (empowerment) e inter-subjetividade – Santner resume o ponto de vista de Winnicott com o aforisma: ‘Luto sem solidariedade [i. e., jogo com o objeto transacional na ausência de inter-subjetividade ou de um testemunho inter-subjetivo] é o início da loucura (p. 207).
Nesse sentido, Bonnie Honig aponta que estes conceitos (levantados por Winnicott e Santner) colocam em destaque o papel que “as instituições, a cultura, a comunidade e a política” desempenham nos projetos de transição e deslocamento, uma vez que são elas que formam o contexto social onde estes processos ocorrem (p. 207).
Para Bonnie Honig, nenhuma das condições para a uma transição bem sucedida – lamento/luto(mourning),capacitação(empowerment)e inter-subjetividade – estava presente na história de Rute:
A separação de Rute e Orfa (que, a meu ver, personifica Moab) é traumática. Não há espaço saudável para o jogo com o objeto transacional, nem testemunho inter-subjetivo, nem possibilidade para um luto apropriado porque a Rute não é dada a permissão cultural, jurídica ou psicológica para lamentar Orfa-Moab. (p. 208).
Para que Rute pudesse lamentar a perda de Orfa, seria necessário que houvesse o “reconhecimento de que Orfa (Moab) é parte de Rute”. É nesse sentido que, para Honig, o Livro de Rute pode ser lido como ‘um conto do luto incompleto, uma fábula de transição fracassada” (p. 208).
Bonnie Honig chama a atenção para o fato de que a história de Rute se repete na dinâmica da imigração das democracias multiculturais contemporâneas. Inicialmente através de um “furioso e hiperbólico (...) cosmopolitismo assimilacionista, no qual todas as conexões com a terra-natal são negadas” e posteriormente pela “recusa da transição e recolhimento em um enclave separatista ou nacionalista que deixa o imigrante marginalizado em relação ao país que o recebe eem relação à perda de sua terra-natal” (p. 209).
Segundo a autora, assimilação e enclavismo são decorrentes do empenho em recuperar os estrangeiros para projetos nacionais, ou nacionalistas. Mas, na sua opinião, há alternativas a estas reações. Em primeiro lugar, diz Honig, é necessário agir de forma construtiva às “invocações quanto aos privilégios dos anfitriões em relação aos convidados”, criando caminhos alternativos. Um deles é assegurar a existência de espaços onde seja possível o jogo com o objeto transacional (p. 209). Espaços de negociação política onde o luto/lamento seja possível, e não apenas para os imigrantes. Como afirma Honig, o luto não é exclusividade dos imigrantes:
Transições e expansões democráticas bem sucedidas dependem da disposição de ambas as populações, receptora e de imigrantes, para se arriscar a uma transformação mútua, para ajustar e atenuar seus anseios domésticos em benefício dos outros e de uma vida política em conjunto (p. 209).
Segundo Bonnie Honig. estes espaços podem ser oferecidos pelas associações secundárias: grupos e associações de bairro, a escola local, organizações de assistência aos imigrantes. Estas associações secundárias desempenham um papel importante na formação de uma rede de solidariedade que se forma por identificações outras que não aquelas pautadas pelo nacional. Além disso, através de uma educação para a diversidade, que aprimore a percepção do mundo como um lugar de diferenças mediadas pela tolerância. (p. 210).
Bonnie Honig sugere, entre outros caminhos desta educação para a diversidade, o estímulo para que os residentes conheçam outras línguas, uma vez que o conhecimento de uma nova língua, além de significar o compartilhamento de um código, também estimula a identificação com outras pertenças. A outra sugestão de Honig, “ao invés de subnacional, é associativa e afetiva”. Diz respeito ao movimento de cidades irmãs, que como na relação fraternal de Rute e Orfa, “exemplifica e pode ainda ajudar a construir um futuro cosmopolitismo democrático”. Na opinião de Bonnie Honig, este movimento transnacional, baseado em formas de solidariedade local e internacional, é de grande importância no rompimento com projetos de “(re-) nacionalização por gerarem práticas de cidadania afetiva que ultrapassam as fronteiras do Estado”:
Juntas, as associações subnacionais e transnacionais desempenham o papel de uma prática cosmopolita. Elas propiciam lugares de ação nas políticas nacionais (-istas), enquanto servem também como lugares nos quais lamento/luto (mourning), capacitação (empowerment), solidariedade e agenciamento podem se desenvolver e encontrar expressão. (p. 210)
É nesse sentido que, para Bonnie Honig, o Livro de Rute é “não apenas uma fábula da fundação e da imigração”, mas também uma “ parábola do luto e da pertença”, que revela a necessidade de existirem condições institucionais e culturais para a elaboração do luto, bem como a importância dos espaços inter-subjetivos e das “(sempre contestadas) conexões com o passado” (p. 210). Dessa forma, o argumento de Bonnie Honig revela a importância que o contexto tem na constituição e reconstituição do self (p. 211).
Em sua leitura do Livro de Rute, Bonnie Honig chama a atenção para a necesidade de se criar alternativas para a questão da imigração além daquelas da assimilação ou do fechamento em uma identidade “pura”. Segundo a autora, a história de Rute nos conduz a um “cosmopolitismo democrático que busque assegurar tanto para os imigrantes quanto para as populações que os recebem condições culturais e institucionais, éticas e políticas para uma adequada elaboração do lamento – e da vida – em conjunto” (p. 211).
Obviamente, as propostas de Bonnie Honig esbarram em questões de longa duração, da formação e transformação de mentalidades. Por isso, a meu ver, existe um componente político naquilo que chamo de necessidade de reconhecimento e explicitação de nossas múltiplas pertenças, construídas ao longo de nossas trajetórias particulares, uma vez que podem servir de forças transformadoras na construção de uma sociedade pluralista e democrática. A memória da migração – quero frisar que não falo de imigração, mas de migração, como modo subliminar de superar a idéia de uma origem – a meu ver, é fundamental na crítica a fórmulas de construção identitárias essencialistas, porque é através da memória das trajetórias individuais e coletivas que se torna visível o processo de interação entre indivíduos e identidades e o incessante processo de construção e reconstrução de identidades individuais e culturais, que passam a ser compreendidas como um móvel, mutável, flexível.
A explicitação da memória da migração, da memória de nossas múltiplas pertenças, talvez seja um possível caminho para se elaborar um tipo de pensamento sobre identidades que as conceba como um processo que ocorre por meio da interaçãoentre indivíduos com diferentes trajetórias, onde cada indivíduo pode ser um potencial sujeito mediador entre diferentes identidades. Daí a importância que vejo, hoje, nos discursos de auto-construção do self – nos quais incluo autobiografias, memórias, e até mesmo cartas e correspondência eletrônica –, como um espaço de explicitação dessas trajetórias.
Quanto a nós, teóricos e críticos literários, em nossa condição de produtores de conhecimento que participamos da construção da própria episteme (Schmidt, 1996, p. 102), o empenho na elaboração de um instrumental teórico capaz de lidar com a questão da subjetividade e da identidade de modo a não reduzir sua complexidade e na adoção de estratégias de leitura preocupadas em superar as dicotomias “estrangeiro X autóctone”, “pertença X exclusão”, etc., poderiam representar, a meu ver, uma importante contribuição para o fortalecimento de uma mentalidade pluralista e democrática.
Referências Bibliográficas
HONIG, Bonnie. “Ruth, the model émigré: mourning and the symbolic politics of immigration”. In: Cosmopolitics. Thinking and Feeling beyond the Nation. Pheng Cheah and Bruce Robbins, editors. Cultural Politics/Volume 14. University of Minnesota Press. Minneapolis- London, 1998.
SCHMIDT, Siegfried J. “Sobre a escrita de histórias da literatura. Observações de um ponto de vista construtivista”. In: OLINTO, Heidrun Krieger (org.) Histórias de literatura. São Paulo:Ática: 1996, p. 101-132.
[1] É importante ter em mente que o substantivo mourning em inglês é utilizado tanto para designar “luto”, quanto “lamento”, sendo que o verbo to mourn significa lamentar, prantear, chorar, sentir (a morte de alguém).